quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O RETRABALHO SOCIAL


                Construímos uma sociedade, ou melhor, estamos a construí-la. Os desafios monumentais que se colocam a frente de cada cidadão ou instituição no momento de fazer e propor mudanças não são triviais, porém noto que, às vezes, maior ainda do que os obstáculos anteriores são as dificuldades relacionadas à força de vontade e pró atividade em cada um de nós.
               Vejo que o trabalho social, ou seja, o trabalho para a sociedade, fica muito atrás do trabalho pessoal, em detrimento de questões ainda obscuras da psique humana. No entanto, e aí que fica o cerne da questão, há um imenso paradoxo entre viver em sociedade e trabalhar apenas para si mesmo.
               O paradoxo não se trata de egoísmo ou mesmo idiotice (no sentido original grego da palavra), se trata da inescapável realidade que, só se tem qualidade de vida, quando a necessidade basal da grande maioria no entorno é satisfeita.
               O fascinante dos paradoxos reais é que eles de fato existem e persistem por séculos, porém seus frutos naturalmente são malignos e sua marca fica profunda na alma da humanidade.
Para ilustrar um pouco melhor a teoria pode-se tomar o exemplo da maior cidade do Brasil, repleta de milhões de pessoas que trabalham freneticamente, para si mesmas. Mesmo com esse número avassalador de trabalhadores, todos (ricos, pobres, homens, mulheres, crianças, idosos e etc.), todos estão sujeitos aos produtos redutores da qualidade de vida.  A insegurança, a sujeira, o ar, o trânsito, o desdém público atinge a todos nós.
Ficam evidentes então as questões obscuras da psique humana. Algo acontece entre nossos olhos e cérebros que não percebemos que os trilhões gastos somente para si mesmos, com blindagens de carros, vaporizadores de ar, seguranças particulares, escolas privadas, hospitais privados e todo tipo de fuga do problema, atenuam as conseqüências do mesmo (para alguns poucos), porém ainda temos medo no farol da esquina de casa a noite, ainda sentimos a garganta desértica em dias onde sobra mais poluição do que umidade relativa no ar, ainda temos medo de pegar dengue no verão e ainda somos muito mal educados uns com os outros.
Para onde vai esse recurso todo? Se a sociedade (conjunto geral de pessoas), parece se mover a passo de cágado para qualquer canto. Esse recurso vai para o retrabalho social, vai para cobrir as despesas do investimento deficitário que é pensar só no umbigo. Estamos ganhando muito, e gastando tudo na falta de equipamento social, estamos correndo atrás do próprio rabo e isso nos tem deixado muito atordoados e perdidos.